Os atos que motivam o nosso maravilhamento e a nossa admiração e os grandes gestos trágicos colocados diante de nós pela arte e literatura nos lembram de que há um outro mundo por trás de nossas negociações cotidianas. Trata-se de um mundo de absolutos, no qual os princı́pios dominantes são a criação e a destruição, em vez dos compromissos, das obrigações e da lei. Mas algumas experiências provocam uma erupção neste mundo por meio do véu da promessa e o fazem conhecido por si mesmo. É certo que o poder da tragédia não consiste, como argumentou Aristóteles, em despertar e purgar a devoção e o medo, mas em mostrar que nós, humanos, podemos enfrentar a aniquilação, e, ainda assim, manter a nossa dignidade como seres livres e autoconscientes: podemos encara o sofrimento e a morte como indivı́duos e não como meros pedaços de carne. Em outras palavras: a morte pode ser suspensa da ordem da natureza e remodelada como uma caracterı́stica suportável do Lebesnwelt. (SCRUTON, Roger. A Alma do Mundo. Record: Rio de Janeiro, 2021, p. 199.)
A palavra que cala
· Sérgio Paulo Muniz Costa
O discurso do Papa Leão XIV proferido no último dia 9 de janeiro aos embaixadores acreditados junto da Santa Sé é um dos documentos mais importantes da Igreja Católica nas últimas décadas. Pela profundidade, tem ares de uma encíclica que a urgência de um mundo em desordem impôs como uma palavra a toda a humanidade e não apenas aos católicos. Pela abrangência e ecumenismo, assume uma atitude conciliar mundial.
Como disse o Papa Francisco em seu primeiro discurso aos embaixadores em 13 de janeiro de 2014, trata-se de “uma tradição já longa e consolidada que o Papa, no início de cada novo ano, encontre o corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé para formular venturosos votos e apresentar algumas reflexões que brotam primariamente de seu coração de pastor”.
A continuidade dessa tradição no atual momento levou o Papa Leão XIV além dos votos e das reflexões para fazer uma tomada de contas da situação mundial com tamanho impacto que o seu discurso foi cognominado de “Estado do Mundo”, em um paralelo ao “Estado da União”, o discurso do presidente dos Estados Unidos em todo início de ano.
O discurso do Papa neste início de 2026 tem realmente muito de uma tomada de contas, de uma descrição da perigosa situação mundial e de uma apuração das razões que levaram a esse estado de coisas. Mas o papel e a vocação do Papa não fazem da sua palavra um contraponto a qualquer chefe de Estado.
Discorrendo da geopolítica até os mais pessoais temas da vida humana, o Papa, mais do que como chefe de Estado, falou como chefe da Igreja Católica a cada ser humano, independente de sua cidadania ou nacionalidade. Melhor seria entender o decisivo discurso de Leão XIV na última sexta-feira como uma mensagem que deve ser lida por cada país, por cada nação, por cada instituição, por cada homem e mulher, acima de qualquer preferência ideológica, religiosa ou de opinião, dado o seu caráter profundamente humanista.
Como costuma acontecer às manifestações do Papa, surgiram interpretações e destaques parciais, enfatizando aspectos que agradam a tal ou qual grupo. Entretanto, independentemente da análise de conteúdo do discurso, que não cabe nestas linhas, da sua leitura avulta uma necessidade meridiana: que seja lido em sua totalidade, por inteiro, de coração aberto.
Da aceitação do que não necessariamente nos agrada ou coincide com os nossos pontos de vista, em um cenário continuamente fraturado, pode advir a recuperação de um sentido de bem comum que restaure a normalidade das relações internacionais, o que só pode resultar de corações mais humanos.
Subestimamos o bem e o mal que individualmente podemos fazer, crendo que os sucessos e fracassos experimentados por nossas sociedades ou comunidades se devem aos governantes, aos dirigentes que agem em nosso nome, ou assim deveriam fazê-lo. Poucas vezes nos damos conta de que eles são expressões da vida social de que participamos, pela qual autorizamos ou negamos, apoiamos ou discordamos, participamos ou nos afastamos das ações que dão rumo à nossa vida em comum. Esquecemo-nos do que ensinou Santo Agostinho: de que cada um de nós é protagonista e, portanto, responsável pela História.
Por certo, mais importante do que o primoroso conteúdo filosófico, teológico e histórico do discurso de Leão XIV tenha sido o alvo de sua mensagem: o coração humano. É nele que a palavra deve calar. A palavra que as maiores inteligências ao longo da História reconheceram como suprema: Deus.
· Historiador
Audiência com membros do Corpo Diplomático acreditados junto à Santa Sé, 09.01.2026
Discurso do Santo Padre
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