Tema

A ordem da criação

Os atos que motivam o nosso maravilhamento e a nossa admiração e os grandes gestos trágicos colocados diante de nós pela arte e literatura nos lembram de que há um outro mundo por trás de nossas negociações cotidianas. Trata-se de um mundo de absolutos, no qual os princı́pios dominantes são a criação e a destruição, em vez dos compromissos, das obrigações e da lei. Mas algumas experiências provocam uma erupção neste mundo por meio do véu da promessa e o fazem conhecido por si mesmo. É certo que o poder da tragédia não consiste, como argumentou Aristóteles, em despertar e purgar a devoção e o medo, mas em mostrar que nós, humanos, podemos enfrentar a aniquilação, e, ainda assim, manter a nossa dignidade como seres livres e autoconscientes: podemos encara o sofrimento e a morte como indivı́duos e não como meros pedaços de carne. Em outras palavras: a morte pode ser suspensa da ordem da natureza e remodelada como uma caracterı́stica suportável do Lebesnwelt. (SCRUTON, Roger. A Alma do Mundo. Record: Rio de Janeiro, 2021, p. 199.)

Artigos

Igreja, civilização e humanidade: legado e desafio papal no século XXI (1a parte)


·       
Sérgio Paulo Muniz Costa[1]

 

Resumo

A sucessão do Papa suscita expectativas cada vez maiores, não só dos seus fiéis ao redor do globo, como também de outras culturas e civilizações, tanto na dimensão política como na social. Líder espiritual e moral da maioria católica dentre a maioria cristã no mundo, o Papa, da cátedra pontifícia ou como chefe de estado, tem voz e participação nos grandes temas da humanidade. É à luz desses temas que são analisados o legado de Francisco e os desafios colocados a Leão XIV no contexto da missão da Igreja Católica, apresentando as possíveis continuidades e mudanças na sucessão pontifícia. Para tanto, em cada tema escolhido, serão apreciadas as prescrições do Catecismo da Igreja Católica, a influência das tradições agostiniana e franciscana nos dois pontificados, as encíclicas de Francisco e os primeiros atos de Leão XIV, concluindo pela validação dessa abordagem teórica na conjuntura atual.     

Palavras-chave: Francisco, Leão XIV, catecismo, tradição franciscana, tradição agostiniana.

Abstract

The succession of the Pope raises ever-increasing expectations, not only among his faithful around the world, but also among other cultures and civilizations, in both the political and social dimensions. As the spiritual and moral leader of the Catholic majority among the Christian majority in the world, the Pope, from the pontifical chair or as head of state, has a voice and participation in the great issues of humanity. It is in the light of these themes that the legacy of Francis and the challenges posed to Leo XIV in the context of the mission of the Catholic Church are analyzed, presenting the possible continuities and changes in the pontifical succession. To this end, for each chosen theme, the prescriptions of the Catechism of the Catholic Church will be assessed, the influence of the Augustinian and Franciscan traditions in the two pontificates, the encyclicals of Francis and the first acts of Leo XIV, concluding by validating this theoretical approach in the current context.

Keywords: Francis, Leo XIV, catechism, Franciscan tradition, Augustinian tradition.

1. REITERAÇÃO DA MISSÃO

A sucessão do Papa enseja uma reflexão sobre o papel da Igreja Católica no mundo atual, tanto na dimensão institucional como na atuação pastoral, ambas presentes no legado deixado por Francisco e no desafio colocado a Leão XIV em um início de século que augura acontecimentos determinantes para o futuro da humanidade. 

Às exéquias do Papa Francisco acorreram chefes de estado, de governo e altos dignatários[2], demonstrando que o Sumo Pontífice continua a ser uma instância política internacional da maior relevância, com voz ativa nos grandes temas da atualidade.

“A Igreja Católica que Francisco deixa como legado é uma entidade global, que deixou de estar centrada na Europa”, lembra Massimo Faggioli[3], porém, as representações oficiais ao seu funeral foram maciçamente europeias, de quase todos os países do continente, e de alguns dos mais importantes das Américas - Estados Unidos, Brasil e Argentina -, algo compatível com a importância política do papado para o Ocidente, onde se encontram 68,2% dos católicos no mundo, dos quais 47,8% nas Américas e 20,4% na Europa[4]. Significativamente, a escolha do novo Papa recaiu sobre um cardeal duplamente americano, nascido nos Estados Unidos, mas com longa atuação missionária no Peru.

A sucessão de Francisco atraiu a atenção de governos, opinião e imprensa, ao ponto de suscitar rumores de interferência política estrangeira no processo de escolha do novo Papa, e gerou grande expectativa entre os católicos ao redor do mundo, que acompanharam contritos o drama da enfermidade de Francisco e o conclave do qual emergiria o novo pontífice, conscientes de que a transição afetaria as suas vidas. 

Mas tão relevantes quanto essas presenças foram as ausências, se tomado em conta o comparecimento de dignatários ao funeral do Papa João Paulo II em 8 de abril de 2005, na cidade do Vaticano, “uma das maiores reuniões de homens de estado e líderes mundiais da História”[5], à qual compareceram diversos chefes de governo de países com populações não majoritariamente cristãs, dentre eles Argélia, Irã, Iraque, Palestina, Turquia e Síria[6]

Não são as pessoas humanas e públicas dos dois papas que explicam a presença de dignatários aos seus funerais, mas sim a constatação de que, passados vinte anos, o mundo se tornou mais dividido e conflituoso, dificultando a representação ecumênica de culturas e civilizações em uma última homenagem ao chefe da Igreja Católica. 

Segundo Isaiah Berlin, civilização seria aquela condição em que o homem tem “o mínimo necessário para viver uma vida na qual suas faculdades possam desenvolver-se adequadamente” (BERLIN, 1982, p. 73). Os historiadores dedicados ao estudo das civilizações enfrentaram por diferentes vias essa questão: o que é ser civilizado, o que faz uma sociedade ser considerada civilizada?

Discordando parcialmente da teoria de Arnold Toynbee, segundo a qual a civilização seria a moldura do processo histórico de poder e luta em distintas unidades organizadas - a cidade, o estado-nação, o império - Eric Voegelin aponta que, na verdade, “as sociedades civilizacionais são o campo mínimo” (2009, p. 499) e que “para além das civilizações há ainda campos mais extensos do processo de poder” (Ibid. p. 500). A partir desta constatação, Voegelin explora o campo mais extenso, o da humanidade, o “campo universal da história” (Ibid.), ao qual “pertencem todos os homens e campos sociais” (Ibid.). Segundo essa perspectiva, civilizado seria quem tem consciência de sua humanidade e a capacidade de articular a própria participação no campo universal da história, que, em última análise, remete à humanidade essencial e ao pertencimento a uma humanidade universal.

Essa compreensão pelo homem de sua humanidade é tratada por José Guilherme Merquior segundo a dimensão da teoria política, a qual Voegelin teria elaborado “inspirada em diretrizes fornecidas por uma reinterpretação do pensamento social da filosofia clássica” (MERQUIOR, 2017, p. 329). Nessa análise, na qual é apontado como a cultura da civilização pós-industrial é condicionada pela generalização da ação política e pela racionalização da vida social, Merquior conclui que a única perspectiva legítima para o futuro do novo Ocidente, a sua verdadeira vocação universal, é hoje a superação da sociedade de massa - de seu corpo e de sua alma – (Ibid. p. 335), um desafio que ele assume pelo compartilhamento da visão voegeliana da sociedade modelada pela ordem da alma, cujo caráter espelha “a alma dos melhores homens” (Ibid., p. 330), do homem maduro que “põe a razão a serviço da revelação da conditio humana” (Ibid.).

O que Toynbee, Voegelin e Merquior revelam é a natureza da crise civilizacional pressentida desde o início do século XX. Além da importância de seus estudos para o conhecimento histórico, é significativo que cada um deles, no seu tempo e a seu modo, tenha colocado a dimensão existencial no centro da questão civilizacional: Toynbee alertando para a imprescindibilidade do poder espiritual para a salvação do homem (TOYNBEE, 1987, p. 48); Voegelin para a imprescindibilidade do senso comum como um hábito civilizacional do homem (VOEGELIN, 2009, p. 511); e Merquior para a imprescindibilidade de uma “superação global pela reconquista do sentido aberto da existência do homem e da cultura, aberto porque receptivo à realidade do mundo e respeitoso ante a dignidade dos outros” (MERQUIOR, 2017, p. 335).

A discórdia não aumentou apenas entre as nações, mas também, e talvez ainda mais, no coração dos homens. Ao clamor dos riscos à civilização não pode faltar a constatação de que, tão grande quanto o caos que vivemos na ordem internacional e nas nossas sociedades é a desordem espiritual manifestada no desrespeito à vida, à pessoa e à interioridade humanas. 

Não há como negar que a desordem na vida pública, seja ela social ou internacional, decorre da perda da ordem interior do indivíduo. Não há como “faculdades possam desenvolver-se adequadamente” em pessoas que perderam o sentido da existência, ensimesmadas no egoísmo, individualismo e materialismo, sem aquele “mínimo” que está longe de ser apenas material.

Corremos hoje o risco de nos descivilizarmos menos por um colapso geopolítico da ordem internacional do que nos tornarmos desumanizados em nós mesmos pela radical rejeição da humanidade que compartilhamos. O risco de nos faltar o “mínimo”, a despeito da abundância e afluência que marcam as sociedades pós-modernas. O risco de não termos sequer ideia do que esse “mínimo” significa.

A dimensão religiosa da existência humana não pode ser desconsiderada nas relações intra e interpessoais, nas interações sociais e no intercâmbio civilizacional. Antropologicamente, as religiões explicam, respondendo a perguntas existenciais; elas validam, sustentando a ordem moral e social de um povo; elas reforçam a capacidade humana de administrar a fragilidade da vida humana, dando segurança e significado em um mundo imprevisível, inconstante e trágico; e, finalmente, elas aumentam a comunhão social (KEEESING; STRATHERN, 2014, p. 352). 

Toynbee alertou para a necessidade de “identificar, e tanto quanto possível compreender, as diferentes configurações culturais, com que nossa comum natureza humana se tem expressado através das diversas religiões, civilizações e nacionalidades” (TOYNBEE, 1987, p. 48). E Norbert Elias, outro historiador das civilizações, para quem o processo civilizacional é “uma transformação de estruturas individuais” (ELIAS, 2006, p. 64), encerra seu livro “O Processo Civilizacional” com uma abordagem teórica na qual oferece uma conclusão de significado escatológico: “a civilização não está ainda terminada; está apenas no devir” (Ibid., p. 734). Desse modo, a religião é a mais universal interface da humanidade.

Por essa via de especulação lógica se confirma a missão da Igreja, entendida como lugar em que a humanidade deve reencontrar sua unidade e salvação[7], missão que se cumpre em Deus levar a fé a todos os homens, inclusive àqueles que, sem culpa, ignoram o Evangelho de Cristo e a própria Igreja e buscam a Deus, uma missão que postula a unidade dos cristãos, sem o que ela, Igreja, não realiza a plenitude da catolicidade[8].

Por qualquer viés, tradicional remoto ou conciliar-sinodal recente, a Igreja tem vocação missionária e, por conseguinte, universal, que se efetiva tanto na função eclesiológica dos membros das ordens sagradas e do estado religioso, como na ação pastoral junto aos fiéis que constituem o povo cristão, do qual ela, Igreja, cuida pelo múnus do seu magistério[9].

 

2. O PONTIFICADO À LUZ DA MISSÃO DA IGREJA

a.   A doutrina católica e a humanidade

Na sucessão do Papa é reiterada a missão da Igreja Católica e é à luz dela que pode ser analisada a ação da Igreja nos grandes vetores de humanidade que enfeixam tanto o legado de Francisco, como o desafio a Leão XIV: paz, justiça, moral e vida. Essas quatro grandes questões ocupam boa parte do Catecismo “que tem por objetivo apresentar uma exposição orgânica e sintética dos conteúdos essenciais e fundamentais da doutrina católica”[10] na qual se assenta a ação da Igreja no mundo, e, por conseguinte, do Papado. 

Incidem também sobre o pontificado as tradições das ordens a que pertencem os papas ou daquelas que eles adotam como referências teológicas e modelos de ação pastoral, muito influentes até os dias atuais, tanto no caso de Francisco, um veemente adepto do franciscanismo, como no de Leão XIV, proveniente da ordem agostiniana, uma das que mais contribuiu para a edificação da filosofia cristã. Ambas as tradições estão assimiladas no corpus doutrinário católico, espraiando-se em diversas normas e posicionamentos da Igreja que abrangem inúmeros temas.

b.   A influência do franciscanismo

O franciscanismo, aqui entendido como movimento religioso com regra e prática próprias, foi uma das mais poderosas forças emanadas da cristandade ocidental durante a Idade Média. Surgido no início do século XIII na Itália central pela liderança carismática de um jovem de 27 anos, Francesco Bernardone, em pouco tempo, no ano de 1210, foi reconhecido pelo Papa Inocêncio III, que enxergou na Ordem dos Frades Menores um poderoso instrumento da reforma urgentemente necessária à Igreja pressionada por enormes mudanças sociais e pelo afastamento das ordens religiosas do seu compromisso com os pobres e necessitados.

Para que se compreenda por que o movimento religioso do franciscanismo “tenha deixado profundamente sua marca no mundo da baixa Idade Média e que continua presente até hoje e atuando na cultura” (LE GOFF, 2023, p. 179), é preciso ter em conta o seu revolucionarismo e a sua amplitude, expressos no paradigma que Francisco determinou aos Frades Menores, os quais deviam se tornar parecidos às “pessoas vis e desprezadas, os pobres e fracos, os doentes, os leprosos, à semelhança dos mendicantes” (Ibid., p. 142).

A grande ordem que Francisco criou, e que logo se expandiu, englobava três ordens: os Irmãos Menores, as Clarissas e a Ordem Terceira. Essa organização, além de atrair frementes vocações nos Menores e imantar a participação das mulheres em torno de Clara, na Ordem das Damas Pobres, “a primeira comunidade das filhas de Francisco” (DANIEL-ROPS, 2011, p.168), fez dos franciscanos uma ordem na qual “os leigos ocupavam o mesmo lugar dos clérigos”[11] (Ibid., p 169), incorporando com isso “figuras sublimes, como, entre outras, Santa Isabel da Turíngia e São Luís, rei de França, ambos membros da Ordem Terceira franciscana” (Ibid.).

A forma como o franciscanismo permeou a sociedade medieval, vertical e horizontalmente, permitiu que ele exercesse uma poderosa influência em expressões de vida e atividades humanas dispostas em amplo arco social. Ressoando o naturalismo medieval do qual, desde o início, pela simplicidade, se aproximou, Francisco proclamou “sem qualquer panteísmo, nem o mais longínquo, a presença divina em todas as criaturas” (LE GOFF, 2023, p. 38), dando novo significado à Criação. 

Em relação ao dinheiro, então surgindo na sociedade medieval, o franciscanismo, que o seu mentor anatematizou “como objeto maldito por excelência” (Ibid., p. 142), acabou por se adaptar à realidade social: “os franciscanos integrarão o dinheiro e os homens de dinheiro no sistema cristão, reconciliarão o comerciante-banqueiro com a Igreja e o cristianismo” (Ibid., p. 200), muito embora, em relação ao trabalho dos leigos, tenham fracassado no seu apostolado, afastando-se da prática do trabalho manual e da ideologia do trabalho, tornando-se pouco atentos “à integração do trabalho dos leigos no novo sistema de valores espirituais e religiosos que lhes cabia no que se refere à movimentação do dinheiro” (Ibid., p. 204).  

E quanto ao conhecimento, Francisco, que em suas Regras desconfiou da ciência e chegou a proibir a posse de livros pelos frades, terminou por prescrever no Testamento “um lugar mais digno aos manuscritos” e que “os irmãos devem honrar e venerar os teólogos” (Ibid., p. 218), fazendo com que a Ordem, a partir da assunção de João de Parma como Geral (1247), colocasse “a ciência além dos céus e das alturas celestes” (Ibid.) e São Boaventura, seu sucessor, integrasse “definitivamente a posse dos livros na própria natureza da Ordem” (Ibid.). 

O apostolado de São Francisco, grandioso enquanto humilde, dos grandes e pequenos, atingindo todas as camadas sociais e tantas questões, não poderia deixar de apresentar contradições que o seu amadurecimento como líder religioso e a sedimentação de sua mensagem pelos seguidores se incumbiriam de superar. Enquanto se dedicava totalmente aos pequenos, São Francisco de Assis jamais se fechou aos grandes. Em 1214, pretendeu se encontrar com o sultão, abatido após a derrota que sofreu de Las Navas de Tolosa (Ibid., p. 79); em 1219, encontrou-se com o Sultão do Egito (Ibid., p. 83); e teria estado com o monarca cristão mais heterodoxo à época, Frederico de Hohenstaufen, o Stupor Mundi, “um encontro dos dois homens mais imaginativos de seu tempo” (CASSADY, p.187, 2011). Tendo recebido os estigmas de Cristo no êxtase de Alverno, a 17 de setembro de 1224, Francisco foi beatificado em 1228, apenas dois anos depois de sua morte. Bento XV o designaria “a imagem mais perfeita que já existiu de Nosso Senhor” (DANIEL-ROPS, 2011, p. 171-172). É impressionante como, quase oitocentos anos depois, a tradição franciscana ressurgiria como poderosa influência no pontificado de Francisco, explícita nas comunicações papais.

Destas comunicações, as encíclicas, como documentos pontifícios dirigidos a toda a Igreja, são as mais importantes, na medida em que tratam de questões de fé e moral, respondendo a males e a ameaças que pairam sobre a humanidade. Amparadas em bem fundamentada base teológica, as encíclicas papais, que provêm dos primórdios da Igreja, abordam, desde o século XIX, temas políticos, sociais e econômicos do momento, servindo de referência aos fiéis em todo o mundo e marcando a posição do Vaticano diante de grandes questões da humanidade em determinada quadra histórica.

Como tais, as encíclicas são indicadores do pensamento que orienta a ação pastoral do Papa em seu pontificado à luz da Bíblia e da tradição e missão da Igreja. O Papa Francisco emitiu uma carta-encíclica, a Lumen Fidei (“Luz da Fé”), no primeiro ano de seu pontificado, em 29 de junho de 2013, data da Solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, e três encíclicas: Laudato Si (“Louvado seja você”), em 24 de maio de 2015; Fratelli Tutti (“Todos irmãos”), em 3 de outubro de 2020; e Dilexit Nos (“Ele nos amou”), em 24 de outubro de 2024.

A carta encíclica Lumen Fidei é um documento essencialmente teológico, no qual o Papa trata da fé. Conquanto seja um documento doutrinário, nota-se nessa primeira comunicação pontifícia a intenção de Francisco de atuar amplamente[12] citando Guardini: “a Igreja é portadora histórica do olhar global de Cristo sobre o mundo” (FRANCISCO, 2013, n. 22). Nela o Papa sinaliza também a influência franciscana que caracterizaria seu pontificado, quando, depois de mencionar São Paulo e Santo Agostinho, ele, quase ao final, afirma que a luz da fé não nos faz esquecer os sofrimentos do mundo: “os que sofrem foram mediadores de luz para tantos homens e mulheres de fé; tal foi o leproso para São Francisco de Assis ...” (FRANCISCO, 2013, n. 57).

Já as encíclicas Laudato Si e Fratelli Tutti, como o próprio Papa a elas se refere, são “encíclicas sociais” (FRANCISCO, 2024, n. 217), em que ele aborda aspectos da vida moderna por um viés marcadamente franciscano na aproximação com os pobres, os humildes, as mulheres e crianças e a natureza. Laudato Si é a encíclica dirigida prioritariamente ao meio ambiente, na qual o papa renova a inspiração em São Francisco de Assis para defender uma ecologia integral. Em Fratelli Tutti, o Papa Francisco, também se inspirando em São Francisco, prega a fraternidade social e a ecumenicidade que marcaram o apostolado do Santo. E na sua última encíclica, Dilexit Nos, o papa retoma o viés teológico da devoção ao Coração de Jesus dirigida aos fiéis “chamados a construir uma civilização do amor” (FRANCISCO, 2024, n. 182).

c.  O agostinianismo e sua prospectiva 

A ordem agostiniana, ainda que não tenha sido fundada pelo seu pai espiritual, Santo Agostinho, tem em comum com a franciscana a forma de vida mendicante[13] e a época de sua criação, o movimentado século XIII, pleno de mudança, tumulto e inovação. Criada em 1244 pela Santa Sé como uma Fraternidade Apostólica, com o objetivo de reunir grupos eremíticos[14] da Toscana que descendiam das comunidades que receberam diretamente de Santo Agostinho os princípios fundadores formulados em sermões[15], a Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho se organizou em torno da sua “principal lei interna” (SOUSA, 2016, p. 421,), a Regra de Santo Agostinho, “um conjunto de textos normativos” (Ibid.), um deles, Praeceptum, redigido pessoalmente pelo Santo.

O agostinianismo é o resultado da institucionalização da Ordem na Idade Média que colocou os distintos grupos agostinianos sob a proteção da Santa Sé e do pensamento desenvolvido por Santo Agostinho desde a Antiguidade Tardia em várias obras que teriam profunda influência na filosofia cristã. Conquanto a obra de Agostinho já viesse sendo interpretada por filósofos cristãos desde o século IV[16], a fundação da ordem oitocentos anos depois fez do pensamento agostiniano uma fonte institucional que iria inspirar a ação da Igreja Católica.

Combinando a tradição monástica oriunda do próprio Agostinho com o ascetismo dos grupos eremíticos da Europa medieval, em um momento que a Igreja buscava um retorno à simplicidade e à humildade de suas origens, o agostinianismo angariou a credibilidade que fez de sua teologia “uma das grandes correntes do catolicismo vivo juntamente com o tomismo” (DANIEL-ROPS, 1991, p. 59).

Mas a sua influência foi além da teologia. O “agostinianismo político; a sua concepção das duas cidades” (Ibid. p, 54) serviu ao longo dos séculos como fonte doutrinária para lidar com “o imenso problema do relacionamento entre Igreja e o Estado” (Ibid.) e o “catolicismo social” (Ibid. p. 59) praticado hoje pela Igreja sofre “influência determinante” (Ibid.) do agostinianismo, “como acentuou Pio XI na encíclica Ad Salutem” (Ibid.).

A obra de Santo Agostinho repercutiu em campos de conhecimento fundamentais para a civilização, como “Preceptor do Ocidente” (BOEHNER, GILSON, 2012, p. 203), o que o Doutor da Igreja originalmente ensinou sobre a essencialidade de Deus seria desenvolvido pelos agostinianos da Idade Média como “uma tese de epistemologia” (GILSON, 2013, p. 147), fazendo do agostinianismo uma das mais poderosas forças intelectuais do cristianismo. 

A concepção agostiniana da essencialidade divina colocou “o conhecimento verdadeiro na iluminação do intelecto pelo Verbo” (Ibid., p. 146), asseverando que “há no homem algo mais profundo que o homem” (Ibid. p. 146), de onde se pode extrair uma explicação psicológica da alma que gera inteligência de si mesma; uma vida que emana da relação de seu ser com sua inteligência; um pensamento do qual brota conhecimento, que relacionado com a sua expressão gera o amor que ela tem por si” (Ibid.),  tal qual a Trindade, conformando uma concepção da natureza de Deus pela analogia com a imagem de Deus na alma humana.

Esse entendimento de Agostinho sobre a presença de Deus como “uma realidade ao mesmo tempo íntima ao pensamento e transcendente a ele” (Ibid. p. 145) se exprime por “cada juízo verdadeiro seja em ciência, em estética ou moral” (Ibid.). É essa concepção metafísica de Santo Agostinho, na qual se inclui a sua concepção da história do mundo como “um perpétuo desenvolvimento” (Ibid.), que faz do agostinianismo a mais ampla influência do cristianismo do campo da teoria da História. 

A compreensão da importância do agostinianismo requer, no entanto, uma aproximação com o seu núcleo original. 

Santo Agostinho pensou filosoficamente a teologia que haveria de apresentar no auge de sua obra. No seu primeiro livro, Contra academicos (“Contra os Acadêmicos”), reagindo contra o “entorpecimento e a indolência [que] tornaram as armas dos acadêmicos invencíveis” (SANTO AGOSTINHO, 2014, p. 37), ele prega a busca constante da verdade, afirmando que “seria sábio, portanto, aquele que buscasse de modo perfeito à verdade, mesmo que não conseguisse chegar a ela” (Ibid., p. 26). E para que os textos assim fossem compreendidos filosoficamente, Agostinho, o artífice “da primeira grande síntese entre o pensamento cristão e a filosofia grega, o assim chamado platonismo cristão” (MARCONDES, 2014, p. 11), propôs em De Magistro uma filosofia da linguagem sintetizada na lição final do livro: “as palavras não ensinam, mas estimulam a buscar” (SANTO AGOSTINHO, 2009, p. 137). 

Nessa busca da verdade, Agostinho enfrentou a questão da mentira em De mendacio (“Sobre a Mentira”) para estabelecer o marco moral de sua teologia: “não podemos seguir outra regra, a não ser a de que nunca devemos mentir” (Ibid., 2016, p. 141). Essa centralidade da verdade na obra de Santo Agostinho se reitera em De libero arbítrio tres (“Sobre o livre-arbítrio”): a verdade que dá origem à liberdade e a possui com segurança; a liberdade de nos submetermos à verdade suprema que é o próprio Deus (Ibid. ,2021, p. 85-87). Mas é em um dos mais importantes capítulos de Confesiones(“Confissões”), o seu livro mais lido, que Santo Agostinho, ao viver o êxtase de Óstia, alcança a alma e passa por ela para chegar à região onde há abundância de verdade, onde a vida é a sabedoria eterna em Deus.

Como grande corrente do catolicismo animada por sólida teologia, notável força intelectual e compromisso moral com a verdade, o agostianismo pode vir a ter grande influência no pontificado de Leão XIV, não apenas por ser o movimento formador da ordem da qual o Papa provém, mas também devido ao momento atual marcado por ameaças à paz, menosprezo pela justiça, relativismo moral e desrespeito à vida.

Sérgio Paulo - 02/03/2026 20:55 - 57 - 0

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