Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
Um bom livro se mede pelo tema, em sua atualidade, importância e significado; pelo autor, com credenciais que lhe dão autoridade para tratar do assunto; pelas fontes que embasam a obra; e pela narrativa, capaz de atrair e manter a atenção do leitor.
Todas essas condições estão presentes no livro “Berlim, 1961: Kennedy, Khruschóv e o lugar mais perigoso do mundo”. O aumento da tensão geopolítica no quadro de uma nova Guerra Fria; a autoria da obra pelo premiado jornalista Frederick Kempe, presidente do Atlantic Council; a consistência das fontes; e uma narrativa eletrizante fazem do livro leitura imperdível para a compreensão da Guerra Fria e como o conhecimento a respeito dessa crise, uma das cruciais do século XX, pode nos dizer algo em relação ao que hoje se passa.
Prefaciado pelo veterano assessor presidencial General Brent Scowcroft, o livro de Kempe tem muito a dizer nos dias de hoje, desde os labirintos do poder em Washington até as estratégias de intimidação, chantagem e espionagem de Moscou. A narrativa é impressionante. Combinando pesquisa de documentos oficiais, entrevistas, consulta a arquivos pessoais e uma boa dose de História e Geopolítica, o livro de Kempe apresenta uma visão multifacetada da maior crise da Guerra Fria.
É o que Kempe primeiro nos ensina: foi em Berlim e não em Cuba que americanos e soviéticos estiveram mais perto do conflito armado; quando foram definidos novos parâmetros da Guerra Fria; e onde, ao final, foi decidido o conflito. A Crise dos Mísseis em Cuba no ano de 1962 foi um desdobramento da de Berlin no ano anterior que simplesmente poderia não ter acontecido se o desfecho na capital histórica da Alemanha tivesse sido outro.
Todo historiador tem seu viés, seu enfoque, sua abordagem e, por conseguinte, uma posição em relação ao tema que apresenta: como tem Kempe, um crítico contundente da administração Kennedy naquela crise. No entanto, independente do juízo do autor sobre a atuação dos líderes norte-americano e soviético, as surpreendentes revelações de bastidores de ambos os lados no decorrer da crise lançam luz sobre aspectos obscuros, contraditórios e até inexplicáveis daquele acontecimento que determinou a vida de milhões de pessoas por décadas.
O livro mostra como, em acontecimentos de grande magnitude, decisões cruciais são tomadas mais em função de aspectos pessoais do que no cálculo frio de gabinetes, assessores e conhecimento especializado. Daí o subtítulo do livro: “Kennedy e Khruschóv e o lugar mais perigoso do mundo”. Os muitos testemunhos e dramas pessoais dos envolvidos na crise expõem a tragédia que foi a construção do Muro de Berlim, pela qual Khruschóv assumiu inteira responsabilidade, conforme registrado nas memórias que contrabandeou para o Ocidente.
“Berlim 1961” é um livro surpreendente do início ao fim, principalmente para aqueles que julgam ter um bom entendimento daquela crise. Sua leitura nos confronta com uma realidade talvez tão brutal quanto a de sessenta e cinco anos atrás, na qual avultam as fraquezas e grandezas humanas que marcam os momentos decisivos da História.
Berlim, 1961: Kennedy, Khruschóv e o lugar mais perigoso da História/ Frederick Kempe; tradução de Hildegard Fest – 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2013.