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Da justiça entre as nações

Citando Pompeu, Grotius (1597-1645) escreveu que “o Estado verdadeiramente feliz seria aquele que tivesse a justiça por fronteiras”, e, concluindo sua vasta e famosa obra De Juri Belli ac Pacis (1625), que “não é somente todo e qualquer Estado que é mantido pela boa fé, mas é também essa sociedade mais ampla das nações”, pois “ninguém, de fato, se alia facilmente aos que têm reputação de fazer pouco caso do direito e da boa fé”.

Artigos

Dos lugares-comuns ao senso comum

 

·      Sérgio Paulo Muniz Costa

 

As atitudes e decisões inusitadas de Donald Trump sacudiram a política internacional em 2025, culminando, na abertura do novo ano, em um acontecimento emblemático da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos até certo ponto esperado: a deposição de Nicolás Maduro.

Questionando alianças, hostilizando aliados, quebrando paradigmas diplomáticos e empregando uma retórica crua, Trump, como 47º presidente norte-americano, parece contrariar muito do que seus antecessores fizeram na maior parte do século XX, o século americano. Não é sem razão, portanto, a crítica que lhe fazem interna e externamente, de violar a ordem internacional que foi erigida dos escombros da Segunda Guerra Mundial.

Mas cabe perguntar: que ordem internacional? Nos últimos vinte anos, “a era do depois’ (de 11 de Setembro), o mundo, literalmente, virou de pernas para o ar. Atentados varreram a Europa e Estados Unidos; a imigração descontrolada abalou governos europeus; e uma nova forma de guerra, a híbrida, tocada a desinformação e polarização, dividiu o Ocidente até a raiz, resultando na maior guerra europeia desde a Segunda Guerra Mundial, enquanto Moscou e Pequim trabalhavam descaradamente por uma nova ordem, desde os BRIC até o Sul Global.

Que ordem então? A ordem que os Estados Unidos, pretensamente defensores da antiga ordem, resolveram implodir. Nesse contexto, é inútil rotular a captura do ditador Maduro em território venezuelano como violação do Direito Internacional. Goste-se ou não, essa estrutura foi demolida por uma mistura de fraqueza, omissão e intencionalidade que a História ainda há de explicar e julgar. Por ora, o que se tem é o fato bem real de que a maior potência do planeta decidiu abandonar a antiga ordem pela que pura e simplesmente lhe convém.

Aceitar e lidar com essa realidade não passa pelos lugares-comuns que predominam na imprensa e nas análises especializadas sobre a atual política internacional dos Estados Unidos.

O primeiro lugar-comum é tomar Trump por um improvisador desconectado da realidade. Nada disso. Imprevisibilidade é muito diferente de improvisação. Aproximando-se de adversários e rivais para desmontar barreiras e em seguida impor movimentos difíceis de resistir, Trump, em sua midiatização, desafia a lógica tradicional que costuma pautar as negociações internacionais. Mas não é preciso muito esforço para notar que ele opera sobre uma camada de concepções, interesses e articulações consolidadas nos aparatos econômico, político e militar dos Estados Unidos, as quais, por sua vez, estão bem conectadas com outros atores internacionais. Em suma, Trump ousa, mas nem tanto.

O segundo lugar-comum é pensar Trump como um arrebatado líder que não está atento à situação interna. Como político experiente, Trump está em sintonia com a maior parte da sociedade norte-americana e expressa, em suas atitudes e medidas, o que essa maioria pensa, tanto no apoio popular expresso em pesquisas, como no acatamento das suas diretrizes pelo aparelho estatal, do Pentágono ao Departamento de Justiça, da defesa à imigração, passando por quase tudo que os americanos vêem como desarranjo. Em linguagem castiça: Trump manda, com o apoio do Legislativo e bafejado por uma Suprema Corte distante da política; e manda muito, simplesmente porque atende às expectativas da sociedade norte-americana.

O terceiro lugar-comum das análises sobre a ação norte-americana na Venezuela é fadá-la ao fracasso, carimbada de antemão como mais uma catastrófica intervenção que promove violência e instala ditaduras. Nenhum país tem mais experiência que os Estados Unidos em intervenções que moldem outras nações de acordo com as próprias visões e interesses, a maior delas, após a Segunda Guerra Mundial, diretamente, na Alemanha e Japão e, indiretamente, na Itália. De lá para cá, o sucesso das intervenções norte-americanas dependeu muito mais da resposta das sociedades-alvo, variando desde o sucesso da Coreia do Sul até o fracasso do Vietnã na Guerra Fria. Mas se há uma lição que os norte-americanos podem ter extraído de suas recentes intervenções, do Iraque ao Afeganistão, passando pela Primavera Árabe, é a de que não há como justificar vidas e recursos para derrubar um regime e depois entregar o poder a uma situação local incapaz de instalar um governo viável. Oitenta anos depois, os Estados Unidos podem estar voltando, na Venezuela, ao modelo de mudança de regime adotado no pós-Segunda Guerra.

Outro lugar-comum é decorrente do anterior: a da mudança de regime baseada na reconstrução de “estados falidos”, bem característica dos anos 90, uma miragem que custou milhares de vidas locais e das potências interventoras lideradas pelos Estados Unidos. O encerramento da guerra civil na Síria é uma sinalização do novo padrão de intervenção norte-americana, caracterizado pelo realismo no trato com os detentores de poder locais. Exercer efetivamente o poder até que um poder efetivo se instale na Venezuela pode ser uma forma eficaz e razoável de encaminhar uma solução para a crise regional.                  

Sobre a platitude do petróleo como causa da intervenção nem vale a pena discorrer, dada a multiplicidade de interesses e lados envolvidos.

Os Estados Unidos, em meio a todo histrionismo de Trump, podem estar além dos lugares-comuns pelos quais se julgam suas ações, na verdade, orientadas por um senso comum de busca de resultados, o maior deles, a estabilidade que atenda aos seus interesses.

E o Brasil? Até aqui, tudo indica que percorreu o caminho contrário.  Abandonou o senso comum que fez dele a grande liderança da estabilidade regional para enveredar por lugares-comuns que entregaram esse protagonismo a outros atores que se movem pelo ressentimento.  

 

·       Historiador, foi Delegado do Exército Brasileiro na Junta Interamericana de Defesa, em Washington, DC.

   


Sérgio Paulo - 04/01/2026 20:29 - 187 - 1

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