Citando Pompeu, Grotius (1597-1645) escreveu que “o Estado verdadeiramente feliz seria aquele que tivesse a justiça por fronteiras”, e, concluindo sua vasta e famosa obra De Juri Belli ac Pacis (1625), que “não é somente todo e qualquer Estado que é mantido pela boa fé, mas é também essa sociedade mais ampla das nações”, pois “ninguém, de fato, se alia facilmente aos que têm reputação de fazer pouco caso do direito e da boa fé”.
O tour de force retórico de Lula e Trump, a despeito da assimetria de poder e influência dos respectivos países, é mais uma expressão da desordem internacional e da corrosão dos valores democráticos no mundo.
Populistas notórios, um e outro, apesar da polarização ideológica que encarnam, comungam do mesmo inconformismo em relação à ordem internacional e à de seus próprios países. Lula pratica há décadas a retórica antiocidental, empenhando agora as relações exteriores do Brasil no desafio delirante à ordem internacional construída desde o final da Segunda Guerra Mundial, enquanto Trump simplesmente faz de tudo para desconstruí-la.
Ambos atacam as instituições nacionais para tê-las sob seu controle, diferindo suas ações pela eficácia com que o fazem: Trump ainda contido pela arraigada tradição de democracia e justiça norte-americana, enquanto Lula faz avançar o projeto de poder petista tolerado ou compartilhado por uma elite política despreparada e patrimonialista.
Arcam, no entanto, Lula e Trump com o custo de contrariarem a população em seus mais genuínos desejos e sentimentos, por mais que digam o contrário. Lula a caminho dos 60% de impopularidade, desgastado pela corrupção, leniência com a criminalidade e ineficácia governamental, enquanto Trump já ultrapassou esse percentual, depois de esvaziar o seu capital político reformista com polêmica sistemática, manifestações irresponsáveis e agressões impensadas a aliados e lideranças mundiais.
Os dois são malabaristas políticos, tanto no circo em que se transformou o Salão Oval da Casa Branca, quanto nos palanques onde o showman Lula faz sua peroração mais do que cinquentenária. Mas, por certo, diferem muito Trump e Lula como oportunistas que são na exploração das situações que o caos internacional oferece.
Enquanto Trump tem por palco o mundo, Lula nem mais no regional saracoteia, limitando-se a usar o presidente norte-americano como espantalho em sua campanha eleitoral. Lula, o autoproclamado comunista, não hesita em posar como compungido católico na esteira do conflito aberto por Trump com o Papa. Por sua vez, o presidente norte-americano insiste em ofender, desprezar e hostilizar líderes europeus pelas mais variadas razões, enquanto Lula é por eles tietado, surfando na onda da momentânea vantagem comparativa adquirida pelo Brasil com mais uma guerra no Golfo.
Não é difícil estimar que Lula e Trump, por conta da inviabilidade de um lulismo sem Lula e de um trumpismo sem Trump, por que razão for, não vão chegar a lugar nenhum. A era dos ícones populistas pode estar se encaminhando para o seu final, com os dias contados pelo realismo que, paradoxalmente, Trump e Lula dizem personificar.
O Brasil não tem influência no cenário internacional para moldá-lo ao discurso palanqueiro de Lula e nem mesmo os Estados Unidos, por mais capacidade de projeção de poder que mundialmente possuam, não alterarão a ordem internacional ao ponto de enterrar os seus fundamentos erguidos ao final da última guerra mundial. Simplesmente porque muitas realidades que aí estão, se não impossíveis, são certamente muito difíceis de desconstruir.
Na mêlée contemporânea não há mais bárbaros nos muros da civilização. Ela é hoje mundial e, por mais distintas que sejam suas expressões ao redor do mundo, não há poder e nem interesse em um colapso comum. Roma pode ter sido atacada em 11 de setembro, mas não foi saqueada e nem perdeu o controle do império, mesmo que digam que o César enlouqueceu.
Ao fim e ao cabo, a OTAN continuará sob a égide dos Estados Unidos com seus membros europeus mais conscientes do seu papel e das suas responsabilidades. A China permanecerá contida em suas ambições territoriais, voltando, paulatina e pragmaticamente, segundo a sua milenar cultura, a um protagonismo econômico e geopolítico mais moderado, mas nem por isso menos eficaz. Os Estados Unidos voltarão ao leito histórico da democracia constitucional que erigiram há duzentos e cinquenta anos, permanecendo como potência hegemônica mundial fundada no respeito ao direito, à justiça e à liberdade.
Quanto a Lula e Trump, não importa onde se reunirão. Eles se encontrarão no passado.
Onde já estão.
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